Apagão aéreo e
entrega do setor da aviação
Sônia d´Azevedo e
Marcelo Duarte
Além da desorganização, em
todos os níveis, o que assistimos hoje, na aviação civil brasileira,
é o desrespeito, em grau máximo, aos cidadãos-contribuintes – que
pagam caro pelos serviços que não recebem – e aos trabalhadores do
nosso setor aéreo – cujos postos de trabalho têm sido paulatinamente
ceifados ou aviltados, num processo de desmonte jamais visto
anteriormente no país.
Ironicamente, tal ocorre quando
temos um governo dos Trabalhadores, cuja atenção deveria estar focada
na geração de empregos formais, no bem-estar social dos cidadãos e no
cumprimento dos Direitos Trabalhistas.
Do desaparecimento da Varig,
empresa 100% nacional, geradora de milhares de empregos e fonte de captação
de divisas no exterior, à bagunça em que se transformou o controle do
tráfego aéreo brasileiro, todas as etapas desse processo de degradação
nos levam a uma análise do que vem ocorrendo em todos os setores
industriais, a partir dos anos 70/80, quando a “Nova Ordem Mundial”
instituiu o neoliberalismo econômico como filosofia e a desregulamentação
do mundo do Trabalho como ação estratégica.
Em sua essência, o neoliberalismo
prega a “precarização” do universo do Trabalho. Nesta corrente de
pensamento, trabalhadores são intitulados “colaboradores” ou
“parceiros”; salário é chamado de “remuneração”; horas
extras vão parar num “banco de horas”, sendo trocadas por brindes
de final de ano; direitos e indenizações trabalhistas desaparecem por
meio de contratos de “terceirização” ou, quando cobrados, esbarram
em leis de última hora que não apontam quem os pagará.
É o homem explorando o homem e
agindo, deliberadamente, para extinguir os últimos vestígios de
Humanidade e Justiça nos ambientes de produção laboral.
Desregulamentar os setores produtivos é o passo principal deste
processo.
Desregulamentação
No final dos anos 70, os Estados
Unidos iniciaram a desregulamentação de seu setor aéreo, estimulando
o que chamavam de “política de céus abertos”. Permitiram, assim, a
proliferação de companhias low cost (baixas tarifas), a contratação
temporária da mão-de-obra de baixa qualificação, por salários vis,
e instituíram a concorrência predatória numa indústria cujo objetivo
prioritário deve ser a segurança dos usuários.
Em menos de dez anos, surgiram e
desapareceram dezenas de companhias. E, com elas, dezenas de milhares de
empregos. Nada, porém, que intimidasse a “maior economia do
planeta”, visto que a mão-de-obra, já em si não regulamentada,
rapidamente era absorvida por outros setores.
O Brasil, “aberto” desde
sempre às novidades globais, encantou-se com a política neoliberal e
elegeu a navegação para experimentar o veneno. Ainda nos anos 80,
enquanto ostentava o título de “8ª economia mundial”, nosso país
entregava sua marinha mercante a preço vil, começando pelo desmonte
deliberado do Lloyd Brasileiro.
Empresa estatal centenária, da
noite para o dia o Lloyd foi transmutado, por ordem de nossos
governantes, num mamute a ser extinto a qualquer custo, para que
empresas privadas obtivessem mais lucro. Engano. O fim do Lloyd
significou, também, a abertura de nosso setor mercante às companhias
de navegação estrangeiras, que já praticavam, há muito, a política
de “bandeira de conveniência” – espécie de prima-irmã daquela
imposta pelos norte-americanos à aviação comercial.
De setor altamente regulamentado,
produtivo, gerador de empregos confiáveis e salários dignos, a navegação
mercante brasileira tornou-se um arremedo de setor produtivo que, em vez
de arrecadar, passou a provocar a evasão de divisas do país. Sem
contar o prejuízo causado aos demais setores que gravitavam em sua
esfera – infra-estrutura dos portos, construção naval, maquinária
especializada, estiva, entre outros.
Nos anos 90, a aviação
Se algo devemos ao governo Collor
de Mello, além da abertura de nossos portões à entrada das grifes de
luxo, sem dúvida, o começo do desmonte da aviação civil brasileira
é fator inquestionável.
Sob a toada de que a (verdadeira)
Varig, nossa companhia “de bandeira”, monopolizava o mercado, o
governo Collor implantou a concorrência predatória no setor,
permitindo que a Vasp voasse as mesmas rotas – e para os Estados
Unidos!!!
Ora, na aviação existe um
protocolo internacional intitulado “acordo de reciprocidade”. Se uma
companhia de determinado país voar para outro, este último tem o
direito de manter o mesmo número de vôos de volta, para o país do
parceiro. Ao “liberar” também para a Vasp, o Brasil permitiu a
vinda de gigantes norte-americanas da aviação. E iniciou, em “grande
estilo”, nosso desmonte.
Decerto, já naquela época,
abalar a estrutura da Varig era uma clara intenção, embora qualquer
motivo para tal extrapolasse os limites do bom-senso. Afinal, todos os
paises cônscios de sua responsabilidade social e da importância do
setor aéreo para a soberania econômica mantêm uma única companhia
“de bandeira” voando rotas internacionais.
O setor aéreo era, de fato, o último
ainda plenamente regulamentado neste país. E, ao longo dos anos 90, foi
paulatinamente desarranjado. Sob o governo FHC o neoliberalismo, então
florescente, enfim frutificou. De Brasília, sucessivas canetadas
desmontavam parâmetros, permitiam transgressões, cassavam fontes de
arrecadação e meios indispensáveis à sobrevivência do setor –
como a possibilidade de obter por preço mais em conta o combustível o
querosene utilizado pelos aviões (QAV-1), produto nobre e caro, porém
subsidiado por dez entre dez governos preocupados em “pensar
estrategicamente” o fortalecimento, e não o enfraquecimento, de suas
economias nacionais.
A (verdadeira) Varig desapareceu
no primeiro semestre de 2006, afundada em dívidas, asfixiada pela
indiferença de nossos governantes para com uma verdade inquestionável:
de que um país só vale, no mercado econômico mundial, aquilo que
arrecada, em divisas e royalties. Se os Estados Unidos, após a “invasão
chinesa” e a débâcle do dólar frente ao euro, ainda são
considerados uma economia forte, é porque detêm o maior número de
patentes registradas no planeta. Com elas, arrecadam royalties. Com sua
movimentação, divisas.
A nós, resta meditar sobre uma
impressão antiga – mas recorrente e, portanto, atual -, firmada por
Eduardo Galeano em suas “Veias abertas da América Latina”: nascemos
para sermos colonizados e explorados.
O fim da (verdadeira) Varig
parecia sinalizar, para as concorrentes nacionais, o fim de um “monopólio”
nos céus e a possibilidade de novos mercados, lucros maiores. Ilusão:
não tinham nem estrutura, nem conhecimento, nem sabedoria para herdar
(ou abocanhar?) os bens e produtos da “pioneira”. Até o momento, só
as concorrentes estrangeiras estão lucrando (e muito, de forma até
exorbitante). Enquanto isso, o país perdeu milhares de postos de
trabalho estáveis, salários dignos, impostos pagos e divisas certas.
Em nome do quê? Satisfazendo aos interesses de quem? Façam suas
apostas, senhores!!!
CPIs do Apagão Aéreo
E eis que, logo após o
“desaparecimento” da (verdadeira) Varig, um acidente aéreo em
território nacional, envolvendo outra empresa brasileira, a Gol,
“detona” uma crise sem precedentes no segmento do controle do tráfego
aéreo nacional.
Até que ponto, porém, a tragédia
de setembro de 2006 não foi apenas um reflexo de todo o desmonte que já
vinha ocorrendo em nosso setor aéreo? A investigação deve ser
profunda, sob pena de jogarmos para baixo do tapete do esquecimento as
falcatruas e “vistas grossas” levadas a termo nos últimos anos –
o câncer, enfim, que vem corroendo as entranhas da nossa aviação
civil.
Que a CPI do Apagão não se
apequene, não se transforme apenas numa Comissão de Investigação de
Acidentes Aéreos. Que se investigue com profundidade o “fatiamento”
e venda da (verdadeira) Varig, num leilão envolto em tanta suspeição
que motivou investigação parlamentar na Assembléia Legislativa do Rio
de Janeiro!!! Que a CPI do Apagão discuta e reveja o conceito de
“empresa nacional” e o aumento de capital estrangeiro que vem sendo
proposto, no Senado, para as empresas de aviação.
O setor aéreo é vital para a
integração e o desenvolvimento de um país, principalmente quando
possui a dimensão territorial de um Brasil. Por definição, o
transporte aéreo regular é um serviço de concessão pública.
Portanto, o Estado brasileiro tem o dever de proteger a aviação
comercial contra a concorrência ruinosa e impatriótica, promovendo seu
indispensável e imediato reordenamento, além de anular as vendas
ilegais da Varig, da VarigLog e da VEM a grupos estrangeiros, assumindo
os serviços concedidos ( CF, art 21- XII, “c”)
Para realizar um trabalho efetivo,
condizente com seu dever de zelar pelo bem-estar e segurança do povo e
respeitar os direitos do cidadão-contribuinte, o Congresso Nacional
precisa, apenas, ter em mente que a corrente neoliberal, por meio do
capital estrangeiro, há muito prega a desregulamentação dos setores
produtivos das economias emergentes. Infelizmente, o Brasil vem fazendo
este jogo.
O que assistimos, hoje, é um
processo que traz somente prejuízos ao país e ao povo brasileiro. Se o
Congresso Nacional – única instituição investida do poder
suficiente – não estancar agora esse curso, só restará às futuras
gerações de brasileiros uma colocação precária, de meio expediente,
em redes de fast food ou drugstores, cujas marcas são fortes patentes
que geram bilhões de dólares em royalties... mas não para nós.
Política que o Brasil precisa
implementar no Setor Aéreo:
- Conservar o mercado brasileiro
de aviação
- Revitalizar a Indústria Nacional
- Manter e criar empregos
- Desonerar o Setor Aéreo
- Estimular uma indústria sadia e um Transporte Aéreo Seguro
- Céus brasileiros para Trabalhadores brasileiros
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Sônia d´Azevedo
- jornalista, atuou durante 15
anos na Associação de Comissários da Varig (ACVAR).
Marcelo Duarte - piloto da aviação comercial, diretor da
Associação de Pilotos da Varig (APVAR).