CAOS
AÉREO
Site Direto da Redação -
20/07/2007
Defendam Congonhas!
Gerald Thomas
Estamos todos chocados, tristes,
obviamente. Mas, além da tristeza, reside a indignação, e me vêm à
mente as tantas mentiras que “construíram” essa companhia aérea
que hoje voa prosa pelo mundo chamada TAM.
Quase um acidente Edipiano? Sim, porque a aeronave parece ter ido ao
encontro do seu ”prédio mãe” e, com esse ato, destruiu-se e
destrui-o (a). Beckett escreveu (quando seu Godot estava no auge, sendo
dissecado por acadêmicos do mundo inteiro) “No symbols where none
intended” (não enxergem símbolos onde eles não existem). Mas como
isso é possível? Esse evento foi trágico, mas também foi autofágico.
E agora querem fechar o aeroporto de Congonhas. Estou completamente
indignado com isso e explico porquê.
Congonhas está lá há décadas, desde os anos 50 se não me engano, e
tem uma ”ficha limpa”, das mais limpas. Se formos examinar quem mais
sujou essa ficha, sempre chegaremos ao nome da mesma empresa: TAM. Não
quero agora, justamente agora, ficar bombardeando essa empresa que está
enterrando seus próprios mortos, mas o fato é que lhe falta técnica,
tecnologia, experiência e o que eles têm - em demasia - é ganância:
fizeram (e conseguiram, através de pressão e lobby politico,
desmantelar a VARIG. Com isso, deixaram mais de onze mil funionários
dignos e experientes, desempregados.. A TAM é uma companhia aérea
cujos aviões caem, derrapam mundo afora, seja em Paris ou em Londres. A
gente tende a querer esquecer eventos trágicos/históricos, mas eles
residem no nosso lado sombrio.
No momento em que escrevo, um Fokker da TAM acaba de arremeter na pista
17, uma pista auxiliar.
O Governo Lula sempre protegeu a TAM e sempre tentou jogar a culpa em
algum outro orgão. Congonhas é perfeitamente viável, sempre foi.
Agora imaginem: Cumbica já não está dando conta dos vôos que entram
e saem, e se ainda tiver que somar a ponte aérea? Mas não é esse o
problema!
A grande vantagem da ponte aérea é que ela nos leva de centro a
centro, sendo que a pista do Santos Dumont é ainda mais curta. Sim, ela
termina em água, no caso de algum desespero. Mas existem
“curativos” para esses desesperos, como o que foi adotado aqui em La
Guardia: no final da pista um trecho de concreto “macio” e de efeito
quebrável-travesseiro, de forma que a aeroave vai sendo freiada pelo
quebrar do concreto e não despenca, não bate, nao derrapa, só vai
diminuindo a velocidade, entende?
Se Congonhas for desativado - justamente agora que passou por uma mega
reforma - enfrentar o trânsito da Marginal e da Dutra ou da Ayrton
Senna (na hora do rush, esquece! Com aquelas Kombis capengas e aqueles
caminhoes desdentados)….Imaginem que loucura! Gastaremos umas três
horas, entre trânsito e check in, para fazer um vôo de 35 minutos.
Houve sim um enorme êrro no que diz respeito ao maravilhoso Congonhas:
a ganância das construtoras (com a conivência da prefeitura) que
ergueram em torno do aeroporto prédios altíssimos da alta burguesia
(ou novos emergentes de Moema, sei lá). Então, no caso de demolição,
sugiro que deixem Congonhas lá, pois serve para uma enorme gama de
pessoas e faz dinheiro. E que se melhorem as condições de proteção
em ambos os lados das pistas (como esse do concreto mole)….e destruam
os prédios da burguesia.
E tomem cuidado a cada vez que um comandante/piloto estiver na beira de
um tapete vermelho estendendo-lhe a mão. Ele tem que estar em seu
cockpit, checando até o último dos ultimos minutos os seus
instrumentos.
Nao irei entrar em detalhes pesssoais de superfaturamento de passagens,
cartão que nunca veio, etc…..Como disse antes, esse é um momento de
tragédia, mas quem sabe com a ajuda da NSTB (National Safety
Transportaion Board) a black box (boa analogia pro teatro que acontece
numa black box, caixa preta) nos trará uma versão ainda mais trágica
do que já sabemos?
Afinal a pista sem os “grooves:” estava funcionando há duas
semanas. Isso, sem duvida, é um crime. O Brasil está se torndo inviável
por todos os lados. Obrigado Lula pela sua usual negligência e
demagigia stalinista. Obrigado Zé Dirceu por ter tornado a TAM tão
potente. Como você vê, essa potencia é artificial, assim como uma pílula
de Viagra. Passado o efeito….
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GERALD THOMAS, é autor e diretor
teatral. Seus trabalhos têm sido encenados em New York, nas principais
cidades européias e no Brasil. Adaptou e dirigiu 19 estréias mundiais
de peças dramáticas e em prosa de Samuel Beckett, com quem trabalhou
nos anos 80. Escreve coluna no site "Direto da Redação", dos
jornalistas Eliakim Araújo e Leila Cordeiro, de onde o texto foi
reproduzido.